CotidianoNotíciasDesrespeito histórico: Jornalista Pedro Basan manifesta tristeza com a possibilidade de mudança de nome da rua que homenageia seu avô

Redação Mais Tupã Redação Mais Tupã21 de fevereiro de 2019
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 O ÚLTIMO CHUTE

Por: Pedro Bassan

 

Alguns tupãenses têm mania de falar mal de nossa cidade. Sentem até um certo prazer em ver o lado negativo de tudo, em diminuir o que é suficiente, em esconder o que é ótimo. Eu nunca fui parte dessa corrente. Eu concordo mesmo é com o IBGE, cujos números deixam Tupã entre as melhores cidades do país na maioria dos indicadores oficiais. Eu acho que é um privilégio ter nascido e sido criado num lugar com tantas vantagens e com gente tão acolhedora. Mas, diante dos últimos fatos, sou obrigado a concordar que poderíamos ter mais sorte em alguns aspectos. Por exemplo: pelo mundo afora, geralmente os empresários mais ricos são os que patrocinam iniciativas culturais em favor da memória e da história. Em Tupã, é o contrário: alguns empresários patrocinam a ignorância, e votam por apagar a história.

Por exemplo, a história de Demétrio Basan. A infância do meu avô foi cercada por um fato curioso: ele mudou de país sem mudar de casa. Nasceu na Rússia. Aos sete anos, o lugar onde morava foi conquistado pela Romênia, na Primeira Guerra Mundial. Ele entrou no Brasil como cidadão romeno. Mas na Segunda Guerra a Romênia se aliou aos nazistas e, ao final dos combates, perdeu o território, deixando meu avô sem pátria. Os soviéticos diziam que ele era romeno, os romenos diziam que ele era soviético. Sem ter feito nada para merecer esse desdém, sem ter cometido nenhum crime, meu avô nunca teve direito a um passaporte.  Oficialmente era um apátrida.

Felizmente, meu avô foi acolhido, bem recebido e fincou raízes na nossa cidade. Tupã foi o único lugar no mundo que Demétrio Basan teve para chamar de seu. Graças à generosidade de alguns tupãenses, teve a honra de ser até nome de rua.

Parece que não vai ter mais. Na última terça-feira, a maioria dos empresários da rua decidiu numa audiência pública pela mudança do nome. Quantos? Três! Apenas três pessoas tiveram o poder de decidir em nome da memória tupãense. Estranha lei essa que dá tanto poder a tão poucos. Se por acaso houvesse só um morador ou proprietário, ele seria, segundo essa lei, uma espécie de dono da rua.

Mas os empresários não estão sozinhos. Vereadores que se autointitulam Pastores são os maiores entusiastas da mudança, cospem na memória de um dos primeiros evangélicos da história de Tupã, quando ser evangélico era quase um ato de resistência diante do sistema dominante. É assim que esses “pastores” vão cuidar do futuro e da memória dos membros de suas igrejas?

 Trocas de nomes de rua já houve pelo Brasil e pelo mundo. Mas quase sempre os que perdem a homenagem são tiranos derrubados, vilões descobertos, pilantras desmascarados. Dessa vez, quem é apagado da história é só um humilde carroceiro, esmagado pelos poderosos do momento.

Só um aspecto poderia me consolar nessa situação toda: cheguei a pensar que Tupã fosse uma cidade sem problemas, com tudo perfeito. Só isso explicaria que alguns vereadores pudessem dedicar parte considerável de seu tempo e do nosso dinheiro a algo tão desimportante quanto mudar o nome já estabelecido de uma rua. Mas, claro, era ilusão. Esses vereadores só estão coroando e passando atestado de sua habitual inutilidade.

Sabe-se lá desde quando preparava-se essa última traição. O fato é que poucos dias depois da morte de meu pai, o último descendente direto que ainda morava em Tupã, deram andamento à ideia, para executar a vileza sem  ter de olhar nos olhos de ninguém. Se isso não é obra de covardes, então que os vereadores e empresários por trás disso, tão preocupados com os nomes das coisas, me sugiram um nome melhor para esse ato.

Nazistas, comunistas e meia dúzia de ingratos tupãenses: eis a lista dos que chutaram Demétrio Basan. Só o último grupo o chutou depois de morto.

Que trabalhem e vivam em paz na R. da Vergonha. Até que se juntem  ao lixo da história também.

           





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