CotidianoTodasRepórter Pedro Basan da TV Globo relata o orgulho de ser tupãense, e cobra pela preservação da memória local.

Jornal Diário Tupã Jornal Diário Tupã13 de fevereiro de 2019
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“OS LAÇOS INVISÍVEIS

Sob o calor terrível do sertão nordestino, caminhávamos pela praça eu e Marta, a melhor futebolista de todos os tempos. A pracinha de Dois Riachos, no interior de Alagoas, nem de longe lembra o cenário que imaginamos para a terra natal de uma rainha: árvores poucas e baixas, a igrejinha, carros-pipa abastecendo as casas mais ricas, e uma solitária barraquinha de doces e salgados, onde, no intervalo das gravações, paramos para comprar um amendoim.

​E qual não foi minha surpresa quando li na embalagem: AMENDUPÃ. Eu disse para a Marta: “esse produto é da minha cidade!”, O orgulho de ver o nome de Tupã cruzando o Brasil e fazendo parte da vida de pessoas tão distantes já bastava, mas, instantes depois, veio o clique: “e o nome do meu avô deve estar nessa embalagem!”. Estava. Pode ter sido só gentileza de rainha, mas eu achei que Marta se comoveu com a minha emoção.

​O endereço da AMENDUPÃ é R. Demétrio H.S. Basan, 1900.

​Seu Demétrio, como era conhecido, pisou em chão tupãense antes de Tupã existir. Em 1926 veio da Rússia para trabalhar nas plantações de café de Lélio Toledo Piza, que vendeu parte de suas terras a Luiz de Souza Leão. Meu avô me contava de caçadas de capivara feitas nos altos das barrancas do Afonso XIII, ou seja, na Avenida Tamoios.

​O imigrante russo viu Tupã nascer e, junto com muitos outros bravos pioneiros, ajudou a cidade a crescer. Seu Demétrio era carroceiro, e, por força dos vaivéns da profissão, conhecia a cidade e seus moradores como poucos. Com os rendimentos modestos que tinha educou dois filhos, um dos quais teve o privilégio de permanecer em Tupã até os últimos dias de vida, meu pai, o advogado Pedro Mudrey Basan.

​Meu avô era pessoa querida e de amizades sólidas, muito além dos bancos da Igreja Batista, da qual foi um dos membros mais antigos, convertido ainda pelos primeiros missionários letos. Mestre Senô contava que deu o nome a um dos filhos em homenagem ao amigo. O trompetista Demétrio Bezerra herdou o talento artístico do pai, engrandecendo ainda mais o nome de Tupã na música.

​Homenagear nossos pioneiros com nomes de rua é lembrar de um tempo em que essas mesmas ruas eram um caldeirão de idiomas, de etnias e de sonhos. Nas calçadas de Tupã conviviam pessoas que tinham atravessado mundo para estar ali. Por terem escolhido essa terra, ainda inóspita e de futuro incerto, ouso dizer que considero esses estrangeiros muito mais tupãenses do que nós. 

​Nossa cidade se engradece ao lembrar de cada um deles num determinado pedaço de asfalto. Porém, essa escolha exige um certo grau de perenidade. Não é só por solidariedade aos carteiros que não trocamos o nome da Avenida Tamoios todo ano. O nome de uma rua faz parte da memória afetiva que partilhamos, constrói nosso senso de pertencimento e nossa própria identidade. Não faltariam figuras ilustres, queridas e dignas de homenagem para batizar todas as ruas de Tupã. Mas a feliz ideia de nomear as nossas vias centrais e principais com etnias indígenas é o que nos distingue das cidades em redor. Saber escrever e falar Rua Caingangs sem titubear nem gaguejar, e com grafia e pronúncia correta, é uma prova de ser tupãense maior do que a própria certidão de nascimento. Tentem com alguém que vem de fora pra ver o que acontece. É a única rua do Brasil com esse nome.

​Acredito que essa perenidade das referências também seja requisito para as outras ruas da cidade que fomos nomeando ao longo do tempo. Não acho que Seu Demétrio, ou qualquer outra pessoa, tenha “direito” a um nome de rua. Mas se a cidade assim decidiu em algum momento, a homenagem deve permanecer. Tampouco trocar nomes de lugar parece uma solução sensata. Que tal promover um revezamento entre Tamoios e Aimorés, cada uma assumindo o nome da outra de tempos em tempos? A que isso levaria?

​Em seu livro Cidades Invisíveis, o escritor italiano Ítalo Calvino imaginou uma cidade em que cada relação estabelecida entre as pessoas é representada por um fio esticado, que as une permanentemente. Fios de cores diferentes vão se esticando e simbolizando relações de parentesco, troca, autoridade e amizade. A ideia nos permite visualizar a dinâmica intangível de uma cidade, que às vezes ignoramos. Cidades ricas e prósperas teriam uma rede de fios densa e multicolorida. Cidades pobres e estagnadas só poderiam   mostrar alguns precários barbantes dependurados. 

​Se a cidade imaginada por Calvino fosse Tupã, quantos e quão coloridos fios não teria estendido o dinamismo de Pedro Morelato? O patriarca de uma das famílias mais arrojadas e empreendedoras da história da cidade merece todas as honras, que ainda são poucas pelo papel que representou no cultivo de um produto que molda nossa economia até hoje.

​Quero declarar meu apoio a todas as homenagens que forem prestadas à memória de Pedro Morelato, mas não numa rua com nome já estabelecido, não em detrimento de uma justa deferência a outro pioneiro, Demétrio Basan. 

​As famílias Morelato e Basan estão unidas numa rua marcada pelo trabalho de uma e pela história da outra. Cortar esse fio é empobrecer a cidade.”

 

Basan, Pedro





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