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Mariane Mariane5 de setembro de 2018
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Índios dizem que se sentiram desrespeitados com a pintura de postes na Avenida Tamoios.

Indígenas das etnias kaingang e krenak, residentes na Aldeia Vanuíre, no vizinho município de Arco-Íris, dizem que se sentiram desrespeitados depois que a Prefeitura de Tupã iniciou projeto com a pintura de postes na Avenida Tamoios. 
Os postes foram decorados com grafismos das etnias que, segundo os indígenas, são proibidos de serem reproduzidos dessa forma, por se tratar de algo sagrado em sua cultura.
A coordenadora e responsável pela cultura kaingang, na Aldeia Vanuíre, Dirce George Lipu Pereira, contestou a medida e disse que esse projeto da prefeitura não deveria ser realizado. “Para eles, isso é um amontoado de riscos, mas para nós é uma pintura sagrada”, afirmou. “Eles pegaram a nossa arte e fizeram do jeito que bem entenderam, como se fosse deles. Eles estão se apropriando de uma coisa que não é deles”, acrescentou.
Para a coordenadora, chamada de “punhá” (mulher responsável pela aldeia), a prefeitura quer utilizar a cultura indígena em busca de verbas ao município. “Não estamos pegando nada de ninguém. Já fomos muito humilhados. Eles fizeram nossa pintura sagrada em um poste de cimento, algo gelado. Isso é violação dos direitos humanos. Eles fazem as coisas erradas e continuam desrespeitando a nossa cultura”, salientou.
Segundo Dirce, o funcionário indígena da prefeitura que fez o grafismo nos postes, não está habilitado para esse trabalho, de acordo com os costumes da etnia. “Essa pessoa não nasceu na aldeia. Ele é um funcionário da Secretaria de Cultura, que não pode responder pela aldeia e por toda a nossa cultura”, ressaltou.
De acordo com a coordenadora, essa pintura só pode ser feita nos corpos dos próprios indígenas, que fazem parte da aldeia e da cultura. “Isso não pode ser feito em qualquer coisa, muito menos em um poste. Até os índios que estão fora da cultura, não podem fazer essa pintura.  Adoeci quando vi as fotos da pintura nos postes”, disse.
Dirce afirmou que pretende entrar na justiça para pedir a retirada dos grafismos dos postes de energia. “Isso é uma violação dos nossos direitos. Eles não podem pegar algo que é sagrado da nossa cultura e fazer o que bem entender”, disse.
Vale lembrar que esse grafismo também é realizado na confecção de roupas, com fios e folhas de caraguatá, onde se produz o “curucutiá de panaré”. Essa arte está exposta no Museu Histórico e Pedagógico “Índia Vanuíre”.

Outro lado
A prefeitura explicou que o projeto tem como objetivo ornamentar os postes da cidade e valorizar a cultura indígena. Para isso, foram desenhados ideogramas e grafismos indígenas das etnias kaingang e krenak nos postes da Avenida Tamoios, iniciando no quarteirão da Secretaria Municipal de Cultura.
Os desenhos foram feitos pelo funcionário da Secretaria Municipal de Cultura de Tupã, Tiago Conechu Vara, que é indígena e artista plástico. Segundo ele, os desenhos são da etnia krenak e cada um tem seu significado.  
A prefeitura ressaltou que a iniciativa buscou valorizar a cultura indígena e, simultaneamente, a ornamentação da avenida principal da cidade. “O objetivo da iniciativa é valorizar a cultura indígena, pois a mesma tem um peso muito grande na história do País, mas especialmente na história da cidade. Além de valorizar a cultura, o projeto irá ornamentar a Avenida Tamoios, pois a mesma é destaque na cidade e merece um atrativo temático”, destacou.

Kaingangs
O Museu Histórico e Pedagógico “Índia Vanuíre” explica que o etnógrafo Telêmaco Borba  coletou, em 1882, o mito de origem do povo kaingang. O mito narra a história dos irmãos mitológicos Kamé e Kairu que, após o grande dilúvio, saíram do interior da serra Crinjijimbé. Dentre muitos aspectos simbólicos dos kaingangs, o mito de origem sustenta ainda hoje muitas das tradições dessa cultura. O povo entende que tudo que há na terra – plantas, animais, e tudo que existe, e até fora dela – a lua, o sol, as estrelas – foi gerado por um dos irmãos mitológicos. O “Sistema de Metades” existe para que haja equilíbrio e contínua reciprocidade entre os dois clãs.
O profundo respeito aos mortos e o apego às terras onde estão enterrados seus umbigos, logo após o nascimento, são expressões incontestáveis do valor estruturante da cosmologia para estes índios.
Hoje, os kaingang vivem em mais de 30 aldeias indígenas nos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul e pelo Leste das Missões Argentinas. 
A língua kaingang pertence à família Jê do tronco linguístico macro-jê, divididos pela linguista e missionária do SIL (Summer Institute of Linguistics), sexta Ursula Wiesemann, em cinco dialetos, que se diferenciam em várias partes de sua estrutura, sendo as mais visíveis as fonológicas.
No oeste de 
São Paulo
Os kaingangs chegaram ao Sul e Sudeste do Brasil há 3 mil anos. A história desse povo em São Paulo pode, então, ser contada a partir daí. No planalto ocidental paulista, ocupavam as terras mais altas dos campos de cerrado, entre os rios Tietê e Paranapanema, vales e espigões, margeando os rios Tietê, do Peixe, Aguapeí/Feio e Paranapanema.
Mil novecentos e cinco foi o ano em que o conflito entre os kaingangs e não índios se intensificou no Oeste paulista, devido ao início da construção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Os kaingangs defendiam o território onde viviam e os não índios lutavam pela posse privada das terras, motivados pela expansão da cafeicultura. Os indígenas destruíam a linha do trem em construção para amedrontar. Os não indígenas contratavam bugreiros para eliminar os kaingangs por meio do uso de armas ou contaminação por doenças, o que causou a morte em massa. 
Em 1910, foi criado pelo governo federal o Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e em 1911 foi estabelecido um acampamento em Ribeirão dos Patos, sendo esta a base de operações do SPI na região durante esse período. O trabalho de “pacificação” dos kaingangs teve início em 1912, sendo o último grupo kaingang “pacificado” em 1915. Em 1916, foram realocados para o Posto Indígena Icatu, local que foi adquirido pelo SPI no ano anterior e, em 1917, por conta de desentendimentos entre os grupos kaingangs, foi criado o Posto Indígena Vanuíre.
Estima-se que 90% da população kaingang foi exterminada entre 1905 e 1921. Em 1921, foram contados 173 indivíduos entre os Postos de Icatú e Vanuíre.

Créditos: Jornal Diário de Tupã

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