DestaqueMais PolíticaTodasA “Delação”

Mais Tupã Mais Tupã18 de abril de 2017
https://i2.wp.com/portal.maistupa.com/wp-content/uploads/2017/04/odebrecht.jpg?fit=668%2C535&ssl=1

A DELAÇÃO DA ODEBRECHT: sobre mochilas e adubos

Rodrigo Augusto Prando

Vivenciamos, nos dias que correm, período singular de nossa história republicana: a divulgação dos nomes de políticos e seus partidos na já famigerada “Lista do Ministro Fachin”, que dá publicidade às delações dos proprietários e executivos da empresa Odebrecht. De qualquer perspectiva que se analise a lista, seja no aspecto quantitativo (centenas de políticos e bilhões de reais) ou no qualitativo (o impacto no mundo político e nas instituições), há surpresa e, por que não, certo torpor.

Os depoimentos gravados em áudio ou vídeo, serão legadas às futuras gerações como uma das principais contribuições brasileiras à civilização. Diferente do “homem cordial”, na ótica de Sérgio Buarque de Holanda, o “homo corrumpere” (homem corrupto) será, verdadeira e cabalmente, nosso maior patrimônio, avesso à ética, à decência, ao respeito e separação dos espaços públicos e privados. Numa das centenas de gravações, em áudio, o delator afirmou, ao juiz ou procurador, não sei ao certo, que, em cada encontro, não levava menos de um milhão de reais. Foi, então, questionado: “onde esse dinheiro era levado embora?”. E ele respondeu: “numa mochila!”. Perplexo, o representante da lei indaga: “E cabia numa mochila?  E o delator responde: “Dependendo da quantidade de notas, cabe de dois a três milhões de reais numa mochila”. Eu, ouvindo aquilo, parei e fiquei olhando minha mochila, no chão da sala, ao lado da televisão. Nunca imaginei que minha mochila, onde carregos livros, cadernos, Ipad e provas de meus alunos, poderia comportar três milhões de reais. Ao chegar na universidade, na sala dos professores, comentei com os colegas e um deles afirmou que cada milhão, em notas de 100, pesa cerca de 2,5 kg. Aí, para mim, fez sentido: realmente, 7,5 kg cabem numa mochila! Imagino que você, leitor, assim como eu ou como o representante do ministério público, deve ter ficado não só curioso, mas que, doravante, nunca mais olhe com singeleza uma mochila. As delações, uma das principais ferramentas jurídicas da Operação Lava Jato, desnuda minuciosamente os mecanismos da ação social de agentes públicos corruptos e dos corruptores, do patrimonialismo, da tomada do Estado brasileiro por interesses antirrepublicanos em seu mais alto grau de perversidade. No domínio da cultura brasileira, a corrupção ganha capítulos cômicos (com perdão do chavão: se não fosse trágico), com os apelidos dados aos políticos e os partidos sendo nomeados como se fossem times de futebol. Há, também, de acordo com a importância do político uma posição em campo: o goleiro, menos importante, era o político que, no momento, não ocupava cargos e, no ataque, os membros do Executivo, presidentes e governadores. Confesso que, numa partida da corrupção, se fosse autor de stand up, faria uma narração do jogo, a partir dos apelidos.

À guisa de considerações finais, duas questões. Primeira, o sistema político brasileiro está apodrecido. Os honestos da república – e eles existem – são obrigados a conviverem com uma horda de flibusteiros da pior espécie. Segunda questão: há que se investigar, individualizando as responsabilidades, separando, sim, o que foi “caixa 2”, o que foi corrupção para enriquecimento pessoal e o que foi corrupção para financiar partidos políticos que desejavam se perpetuar no poder. Erros e crimes devem ser analisados segundo os critérios da lei e, comprovados após devido julgamento, punidos. Oxalá que a podridão ora encontrada no mundo político possa servir de adubo para, quem sabe, surja uma nova e honesta Política. Não há salvadores da pátria. Há responsabilidades sociais e individuais. Que saibamos usar a inteligência e a força dos argumentos para encampar uma efetiva reforma política. A saída para essa situação de mediocridade política está na valorização da Política e não no discurso autoritário e antipolítico.

Os comentários não representam a opinião do portal; a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso. https://portal.maistupa.com/termos-de-uso-comentarios-facebook/


Comentários

Veja também

Contato (14) 3722 8957 Endereço Rua Cherentes, 250 - 11° andar - sala 113. Tupã-SP Cep 17.600-090 e-mail: [email protected]