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Mais Tupã Mais Tupã17 de março de 2016
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LULA: um Ministro salvador?

Rodrigo Augusto Prando

dilma e lula

O clima político, no Brasil, está em ebulição, ora são as informações acerca do Governo Dilma, ora os desdobramentos da Operação Lava Jato; ora, infelizmente, a conjugação destas duas. Há alguns dias, especialmente, que reclamam atenção. Domingo, 13 de março e hoje, 16 de março: no primeiro caso, a maior manifestação de rua contra um governo da história de nosso país, agora, a propalada – mas, ainda, não confirmada – ida de Lula para um ministério de Dilma (provavelmente, a Casa Civil). São poucos os dias que separam estes dois eventos: os protestos e um novo ministro anunciado. O hiato, todavia, é menos importante do que a percepção geral de que nem a Presidente e nem seu partido, o PT, entenderam o inequívoco recado dado pelos manifestantes. 

 

A se confirmar a nomeação de Lula como um, assim chamado, “superministro”, Dilma ignora solenemente os riscos (ou os têm todos calculados e crê ser a melhor opção). Antes, porém, de tratar dos desdobramentos políticos, convido o leitor a conhecer ou rever um trecho de Maquiavel, em seu clássico “O Príncipe”, de 1513, no capítulo XXII – Os secretários dos príncipes:

“Para um príncipe não é de pouca importância saber escolher os seus ministros, os quais são bons ou não conforme a sabedoria de que ele usou na escolha. A primeira opinião que formamos de um príncipe e da sua inteligência estriba-se na qualidade dos homens que o circundam. Quando estes são capazes e fiéis, podemo-lo reputar sagaz, porque soube conhecer-lhes as capacidades e mantê-los fiéis a si. Mas quando não o são, o fato mesmo de haver ele errado na escolha justifica plenamente que o tenhamos e má conta”.

 

O autor florentino asseverou a importância de o governante saber escolher seus ministros na composição de sua equipe. O atual ministério de Dilma é inexpressivo, sem grandes nomes. Duvida-se, também, que a Presidente seja capaz de nomear os seus quase quarenta ministros. Mas, doravante, tudo mudará, como num experimento dos grandes alquimistas, num passe de mágica. Lula colocará tudo nos trilhos, fará a articulação política, dialogará com os movimentos sociais e, porque não, ajudar na economia do país. Tal situação só encontra respaldo numa cultura política de caráter personalista e de visão messiânica. Lula, o ungido, não o humano e mortal, será capaz de corrigir os rumos e dar vida ao moribundo governo. O problema, aqui, é de lógica, ou, melhor dizendo, da relação de espaço-tempo. Uma figura como Lula, aquilatado politicamente, teria espaço em qualquer governo petista, mas só, neste momento, é que escolheu “aceitar” o “convite” de Dilma. Se espaço ele sempre teve, o momento, o tempo político, não poderia ser pior. Impossível não fazer, no campo da racionalidade, a ilação de que Lula, ministro, queira obter foro privilegiado e, com isso, não ser investigado, em primeira instância, pelo Juiz Sérgio Moro. Lula criador e Dilma criatura sempre mantiveram, depois dela eleita, uma relação tensa. Nos bastidores ou publicamente, Lula nunca deixou de mandar recados, reprimendas e conselhos à Dilma. Esta, no segundo mandato, tratou, de início, de formar um ministério menos lulista e afastou ministros do círculo íntimo do ex-presidente. Trouxe, assim, para seu entorno, figuras como Aloísio Mercadante e José Eduardo Cardozo, ambos desafetos de Lula. Não deu certo.

 

Dilma Rousseff não tem uma marca para chamar de sua em seu primeiro mandato. Fernando Henrique Cardoso controlou a inflação e estabilizou a economia; Lula incrementou programas sociais e melhorou a distribuição de renda; Dilma nada fez, nada deixou. O seu segundo mandato está paralisado. Tem o governo de direito, pois foi eleita, mas não o exerceu de fato. Ao conduzir Lula ao ministério cria situação ímpar de se autogolpear. Assume, em suas contas, que Lula poderá barrar o impeachment e que é melhor manter o mandato, ainda que sem poder, do que perder mandato e poder. A política só existe dentro da lógica do poder, como conquista-lo e como mantê-lo, mais do que isso: é, para os pesquisadores, como encontrar a legitimidade do mando, ou seja, qual o fundamento do poder de mandar e de ser obedecido pelos demais. Se o discurso – ou, em outras palavras, a narrativa – dos petistas e do governo já atentam contra a lógica e razão; Dilma subverterá a lógica do poder político: será uma presidente sem poder, uma moradora do Planalto exilada em sua sala.

 

Escrevi, não faz muito, que o ex-presidente Juscelino Kubitschek asseverou, certa feita, o seguinte: “Volto atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro”. A partir de todos os indícios, de se levar Lula ao ministério de um governo combalido, na crença de que ele será um “salvador”, dando-lhe foro privilegiado, Dilma mostra não apenas compromisso com o erro, mas, sobretudo, extrema fidelidade ao erro. Políticos de oposição e movimentos contrários ao governo já prometem, nas redes sociais e na mídia, fazerem mais barulho e, com isso, não desejarem maisprotestos aos domingos e sim durante a semana, com dias úteis sendo perdidos, a fim de confrontar um governo que, em sua ótica, os afrontam cotidianamente. Se o momento é, em termos analíticos, de vasto material para se pesquisar e refletir sobre a sociedade e a política brasileira; é, em termos sociais, de valores republicanos, um dos mais tristes capítulos de nossa história.

 

Rodrigo Augusto Prando – Licenciado e Bacharel em Ciências Sociais, Mestre e Doutor em Sociologia. Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie, do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas.

 




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