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Mais Tupã Mais Tupã9 de março de 2016
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COMPROMISSO COM O ERRO

Rodrigo Augusto Prando

lula dilma

Certa feita, Juscelino Kubitschek, Presidente do Brasil, asseverou que: “Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro”. O universo da política, como é sabido, não é o reino da exatidão, das boas equações ou experimentos em que se pode controlar as variáveis envolvidas nos fenômenos. Por isso, obviamente, o erro é constante, sendo, às vezes, singelos ou de grandes proporções. Ninguém, absolutamente ninguém, está isento de cometer erros. E, quando cometidos, a vaidade costuma impedir de assumi-los em sua integridade e, mesmo, de tentar repará-los. Neste cenário – de falibilidade intrínseca à condição humana – os políticos são, por sua natureza pública, os que devem, sempre, zelar para que suas ações não sejam errôneas e, ainda, ter a humildade de corrigir os desatinos cometidos. Se, ao homem simples, assumir que errou é complicado, imagine-se o quão difícil é para a vaidade de um ator político que ocupa o posto máximo de nossa república. Ao que tudo indica, pelos numerosos fatos que assistimos nos últimos anos, a Presidente Dilma Rousseff parece não ter apenas compromisso com o erro, mas, sim, uma enorme fidelidade a ele.

 

 

A Presidente Dilma está enredada numa trama nada simples em seu cotidiano. Não foi petista de formação (sua origem deu-se na luta armada e, depois, no PDT), não havia disputado nenhuma eleição antes de concorrer à presidência da república, nunca gozou da confiança de seu atual partido, o PT; e, por fim, seu “criador” imaginou poder controlar todas as ações da “criatura” e, assim, voltar ao poder em 2014. Com todos os problemas presentes no primeiro mandato de Dilma, ela conseguiu – numa das campanhas políticas mais violentas e infames da história – eleger-se, novamente, no segundo turno. Findado o período eleitoral a realidade foi, para muitos, nua e crua: haviam sofrido, como se convencionou chamar, um estelionato eleitoral. A pretensa genialidade de seu marqueteiro somada aos erros das campanhas dos adversários e o sistemático desrespeito à democracia e às instituições republicanas deixou, em todo o país, fraturas e ressentimentos até hoje presentes na seara política. É provável, em alta proporção, que a crença de Lula tenha sido de que, após um mandato medíocre de sua sucessora, ele pudesse voltar nos braços dos militantes e, porque não, do povo! A sua crença fez água… Dilma – dado à sua personalidade – fez, certamente, esforço hercúleo para continuar no poder e prosseguiu, depois de eleita, num movimento tático de retirar do Palácio os ministros lulistas, bem como excluir o PMDB e seu vice-presidente, do núcleo duro do poder. Deu no que deu.

 

A oposição assentada numa timidez que chega a resvalar na mediocridade conseguiu, não tanto por seus méritos, deflagrar a instauração do processo de impeachment e, via PSDB, pedir a cassação da chapa Dilma-Temer no Superior Tribunal Eleitoral. Por tudo isso, asseverei, noutra ocasião, que o país estava (e está) à deriva e em compasso de espera. Esperamos os desdobramentos da operação Lava Jato, bem como aguardamos os humores dos políticos e as “vozes” das ruas no bojo das grandes manifestações. Capítulo traumático, nisso tudo, foi a condução coercitiva de Lula para depor na Polícia Federal. A despeito de questões de caráter jurídico, prós e contra, da medida do Juiz Sérgio Moro, o que se viu foi um enorme baile de irracionalidades, de ataques à lógica e à coerência. Lula, teatralizando, como sabe fazer como poucos,comunicou-secom a militância na condição de vítima, usando, como também lhe é peculiar, linguajar chulo que, a muitos soa ofensivo, mas, antropologicamente, faz parte do efetivo entendimento da situação por parte do homem comum. Desqualificar o adversário faz parte da peleja política, seja ele do partido concorrente e, neste caso, até, as instituições como a PF e o Ministério Público.

 

Em momento de tensão política como a que vivemos, Lula partiu para o ataque conjugando sua força e capital político ao elemento da condição de vítima, seja das elites ou da mídia golpista. Ele cumpre, por assim dizer, o seu papel. Nada explicou, mas atacou e vociferou. Os demais atores – presidente do PT, deputados e senadores do partido e militância – saíram em defesa de seu líder máximo. Nada de novo, também. Cumprem seus papéis. Nisso tudo, a única que não cumpriu o seu papel, de recato litúrgico que o cargo exige, foi a Presidente Dilma. Não, apenas, o respeito à liturgia do cargo, mas, sobretudo, atenção às prerrogativas da Presidência da República de separação entre os interesses públicos dos privados. O tumor de nossa formação social, o patrimonialismo, é constante, mas, nesse evento, mostrou-se em sua plenitude. Dilma eleita para governar o país, usou os recursos inerentes ao seu cargo não para fins públicos, mas para finalidade de militância e de prestar solidariedade ao seu padrinho político sob investigação criminal. Foi, com todo o aparato público,até a residência de Lula e, como num comício, ergueu o braço em direção dos militantes, estes bem longe do aconchego luxuoso do apartamento do ex-presidente.  Em privado, seria de esperar que a Presidente Dilma prestasse a devida vassalagem ao seu suserano. Publicamente, contudo, foi mais um (dentre muitos, podem pensar) erro de Dilma: confundiu e misturou papéis apequenando ainda mais as instituições republicanas.

 

Com esforço pessoal aliado às circunstâncias históricas, a Dilma conseguiu marcar sua trajetória presidencial até aqui pela inércia e inexpressividade em qualquer área que se queira analisar. Mas, o seu espantoso compromisso e fidelidade com o erro não apenas lhe garantirá os tristes capítulos de nossa história política, custar-lhe-á – como apontam as evidências – o seu atual mandato.

 

 

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